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15 de março de 2011

Branco no branco

Apetecia-me ter inspiração para escrever,
apetecia-me que fervessem ideias em mim,
apetecia-me não olhar para este espaço em branco.
Apetecia-me não sentir a frustração de saber existirem milhares de milhões de assuntos e não me lembrar de nenhum.
Apetecia-me não ter o síndrome da folha em branco.

Apetecia-me não me apetecer.

11 de março de 2011

Onde estavas no 12 de Março de 2011?


"O povo tem que ir para a luta, não podemos deixar isto continuar, estes ladrões deviam estar todos na prisão, os portugueses têm que se revoltar..." 12 de Março sempre... Socrátes nunca mais! (tivesse eu a capacidade de prever o futuro)

Sic notícias, programa Opinião Pública no ar e também no ar da minha casa, consequência do mau hábito de ter a televisão ligada quando nem sequer estou a olhar para ela. Mas ao passar ouvi, e pensei; ando eu para aqui, de um lado para o outro, com a chávena de café na mão, quando na rua se prepara toda uma revolução. É caso para perguntar:

- Onde é que estava eu no 12 de Abril de 2011, han?

12 de fevereiro de 2011

Alice Vieira

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

Alice Vieira, "O que dói às aves"