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4 de janeiro de 2015

Entrevista a Mário Cordeiro

Uma entrevista aqui que não podem deixar de ler caros leitores. É tão "sem tirar nem por" simplesmente apaziguador e desafiante. Levanto um pouco (muito) o véu.

O “meu querido”, quando dito com sinceridade, diz-se como se fosse um nome. Relacionado com o verbo, tem que ver com desejado. “Eu quero-te”. Essa sensação de ter sido querido ou de se ser querido — amado — é um dos factores protectores maiores que a pessoa pode ter. Ter uma recordação, mesmo que no inconsciente, de uma infância em que alguém nos quis; descobrir ao longo da vida, em gestos, nos símbolos, que se foi querido (até por pessoas que já morreram, pais, avós); pensar que a nossa família, o nosso bairro, o nosso grupo de amigos não teria sido igual sem nós é muito importante.
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Há coisas que não têm de ser verbalizadas, que não são taxativas, mas que insidiosamente ficam lá. Hoje temos a ideia de que tudo tem de ser dito, quase formalizado. Outro aspecto: uma atenção exclusiva, que parece durar a vida toda, e que cabe em 15 minutos.
A minha costela epidemiologista não me deixa fazer comparações. Se hoje é melhor que antigamente. É comparar o incomparável. Estamos a falar de realidades diferentes. Mas há uma coisa que me preocupa na sociedade dita ocidental: a perda da intimidade. Não só a intimidade de um pequeno ecossistema familiar versus os sete mil milhões de habitantes do planeta. Revelar a intimidade ad nauseam, sem se saber muito bem porquê… É bom ter partes íntimas e apreciar os momentos pelos momentos.

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Não. O meu pai era asceta. Tudo o que fosse para promover a pessoa intelectualmente, nunca regateou. Tudo o que fosse extra, dizia: “Façam pela vida.” Uma vez fui pintar paredes para a International House para ganhar uns dinheiros. Passava coisas à máquina.
Sou completamente desprendido em relação ao dinheiro. Sinto que sou uma pessoa afortunada relativamente à esmagadora maioria dos portugueses. Não vou agora armar-me em falso pobre, não vou ser hipócrita. Mas o dinheiro, para mim, serve para o nosso conforto. Não consigo compreender aquelas pessoas que quanto mais têm mais querem.

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Exacto. A responsabilidade educativa é dos pais. Também não defendo que os avós deixem fazer tudo e que aproveitem para minar o caminho dos pais. Devem ajudar os pais. E aquele mínimo de valores que os pais definem, os avós têm a obrigação de respeitar.
Mas pode-se ter uma relação mais despreocupada. Até no quotidiano. Com os meus netos, não tenho de me preocupar com o que comem ao pequeno-almoço, o que almoçaram ou se vão mais tarde para a cama. Com os meus filhos, tenho.

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Telemóvel têm, mas não fui eu que dei. Não têm iPad e não têm consolas. Não vejo interesse. E é viciante. Crianças e adolescentes são seres que têm de ser generalistas, plurissensoriais. Pôr a mão na massa. Numa altura em que o mundo é cada vez mais artificial, o contacto com a natureza é fundamental. Uma das coisas que estive a fazer com o meu filho Tomás, em Outubro, foi recolher folhas, espalmá-las naqueles livros pesadíssimos, fazer colagens. Para mim, é mais engraçado, para eles, é mais engraçado.
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Não. Fui educado na religião católica até aos 17, 18 anos. Nunca fui beato, mas era católico. A determinada altura comecei a pensar que não precisava de intermediário entre mim e Deus. Acredito num desígnio cósmico na humanidade, nos mistérios da natureza, no Big Bang. A religião, nomeadamente a católica, acaba por renegar em muita coisa os princípios anunciados por Cristo. Há muitos vendilhões do templo por aí. A exclusão das mulheres da vida da Igreja, o celibato dos padres: não tem nada que ver com Cristo, são coisas que aparecem já no século XIII.
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Criou-se esse mito da criança ditadora. Nem sempre é assim. Às vezes são os pais que se antecipam ao desejo da criança. Eles dão e a criança não recusa. Dão o chocolate antes de a criança pedir. Muitas vezes nem sequer expressou o desejo: já o teve.
A educação: não é ser uma coisa difícil, é ter momentos terríveis. Momentos de dúvida. Momentos em que nós, que não somos de plástico, não sabemos lidar com a situação, não sabemos compreender o outro, em que o outro não está em estado emocional para dialogar. Finalmente, em caso de conflito de interesses e impossibilidade de consenso, é preciso impor regras. É talvez a base da educação.

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Primeira coisa, transformar conceitos abstractos, como respeito, amor, solidariedade, dignidade, rigor, que não se medem, não se pesam, em exemplos que mostram: “Ah, isto é respeito.” Cumprimentar o vizinho que vem no elevador, segurar a porta para o senhor que vai entrar, perguntar se quer ajuda para levar o saco. Perguntar se a sua mãe, que está doente, está melhor. Algumas pessoas dirão aos filhos: “Tens de respeitar a professora, o vizinho, a avó.” Mas depois não consubstanciam isto. Para crianças que aos seis, sete, oito estão na fase do concreto, que não têm ainda a fase simbólica completamente estabelecida, é difícil perceber.
A segunda coisa é ser-se muito coerente e avisar: se isto vier a acontecer, haverá aquela consequência. E explicar porquê. Outra é analisar os comportamentos e não a pessoa. É necessário que nós, enquanto pais, façamos o percurso de passar de vítimas com vontade de linchar o outro, e de humilhar, de descarregar tudo o que somos, para o estatuto de juiz que aprecia os factos. Se houve ou não houve dolo, se há atenuantes ou agravantes. Implica uma maturidade psico-afectiva muito grande. Caso contrário, estamos a dizer aos nossos filhos: “Não gostamos de ti.” Quando o que temos que dizer é: “Amo-te, mas não gostei nada do teu comportamento.”

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Não foi fácil. As relações devem durar aquilo que duram. Nem mais um minuto nem menos um minuto. Pode durar, foi o caso dos meus pais, até o meu pai morrer. E podem durar muito menos tempo. Disso sabem os intervenientes e mais ninguém. Fui aprendendo que não são os filhos que devem manter uma relação conjugal.
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É. É dar o exemplo de uma pessoa digna, solidária socialmente, um compromisso de existência em relação aos outros.

2 comentários:

Ana disse...

Ma-ra-vi-lho-so. :)

Vale por mil livros, mil manuais, mil receitas e mais todos os "segredos" - que não o são - de educar.

Pimpas disse...

:) Concordo Ana. Verdadeiramente inspirador e tão simples.